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“Democratas assume posição privilegiada para as eleições de 2022”, afirma ACM Neto ao Valor

Em entrevista ao jornal Valor, o presidente do Democratas, ACM Neto, afirmou que o Democratas retomou musculatura e volta a ter “relevância eleitoral”, e o que resultado das eleições municipais coloca o partido em um novo patamar para as negociações de 2022, com condições “de se sentar para conversar com qualquer partido, com qualquer candidato sério a presidente”.

“O partido será ouvido, respeitado e terá relevância. Agora, já será a hora de a gente ter, em 2022, nosso próprio candidato? Não posso responder ainda”, diz, com franqueza, apesar de nomes como o dele próprio, o do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, circularem nos debates para uma chapa nacional, ainda que na vice. “Se não for para 2022, não tardará para o Democratas ter um candidato próprio à Presidência.”

Ainda que não seja enfático, ACM Neto sugere, nas entrelinhas, que o caminho do Democratas certamente não será seguir ao lado de Jair Bolsonaro em 2022. “O Democratas não faz parte do governo Bolsonaro. O DEM não é base do governo Bolsonaro. Todo mundo sabe que temos uma posição de independência em relação a esse governo”, reitera, numa toada que repete desde que Bolsonaro assumiu a Presidência e escolheu, para ministros, três nomes da sigla.

Com uma retórica bem mais moderada do que a do ex-senador Jorge Bornhaunsen – que na presidência do antigo PFL fez a jura de “acabar com a raça do PT por pelo menos 30 anos” -, ACM Neto costurou um meticuloso trabalho à frente do partido que não só lhe permitiu fazer o sucessor na prefeitura de Salvador no primeiro turno como também se credenciar para disputar o governo da Bahia ou seguir como vice em um projeto nacional do centro. Bruno Reis, vice-prefeito de ACM Neto, foi eleito com 64,2% dos votos válidos da capital baiana, o melhor resultado proporcional em todo o país.

Com perfil ponderado, o presidente do Democratas se esquiva de fazer comentários se está em pé de igualdade com o PSDB e o MDB para articular 2022. O que ele destaca, é que há uma “tendência clara de crescimento do Democratas”, sem mencionar que as outras duas legendas perderam prefeituras, em comparação com as disputas de 2016.

ACM Neto salienta, ainda, que o Democratas é “um partido leve, que não tem que justificar nenhum passivo recente mais sério”. É uma estocada aos tucanos, que têm na conta o chamado “mensalão do PSDB”, os enroscos de Aécio Neves e a prisão de um ex-presidente nacional da sigla, Eduardo Azeredo, na conta. A declaração mira com sutileza também os passivos do MDB, a começar por Sergio Cabral e Eduardo Cunha, ambos na prisão.

No primeiro turno, o Democratas recebeu, em todo o país, 8,3 milhões de votos, o MDB 10,9 milhões e o PSDB 10,7 milhões. Mas enquanto emedebistas e tucanos perderam espaço na fatia nacional, o Democratas cresceu, e muito. O partido venceu até agora em 459 prefeituras, enquanto o PSDB vai assumir 512. Em 2016, os tucanos venceram em 785 municípios e o Democratas em 266.

Além das prefeituras de Salvador, Florianópolis e Curitiba, o Democratas está no segundo turno no Rio de Janeiro, com Eduardo Paes, e deve pode levar também a prefeitura de Macapá, cujo pleito foi adiado por conta do apagão de eletricidade no Estado.

Ainda que sem a agressividade de antigos correligionários, ACM Neto segue com o discurso antipetista. “As eleições municipais deste ano ajudaram a acelerar o processo de aposentadoria do Lula”, assegura. Isso não significa, explica, o desaparecimento da esquerda. Mas o poder de cabo eleitoral de Lula se esvaziou, atesta.

Com poder de fogo na Bahia, ACM Neto admite que sua candidatura ao governo do Estado é uma possibilidade, mas ele também não descarta ser um dos atores da chapa presidencial. “Uma candidatura a governador, hoje, é vista como absolutamente natural aqui na Bahia. Se vai ser isso ou se, por acaso, eu vou participar de outro projeto, é preciso ter um pouco mais de paciência.”

Sem ataques diretos a Bolsonaro, o prefeito afirma que “os novidadeiros”, que surgiram com força em 2018, perderam espaço neste pleito. “Com o advento da pandemia o eleitor ficou ainda mais atento e afastou essas saídas criadas da antipolítica.”

A seguir, os principais trechos da entrevista:

Valor: Os resultados das eleições municipais de 2020 colocam o Democratas em outro patamar, no quadro nacional? O que explica esse crescimento notável do partido?

ACM Neto: Nesses anos todos nós assumimos o papel de oposição ao PT, diminuímos muito de tamanho, mas sempre tivemos uma opção muito clara pela preservação das nossas bandeiras, dos nossos ideais, o que, com o tempo, acabou sendo reconhecido. Depois de 2018, eu e a direção nacional do partido elegemos como prioridade o crescimento a partir das bases. Nós passamos dois anos preparando essa eleição municipal, convidando novos quadros para entrarem no partido, estimulando candidaturas no Brasil inteiro. E o resultado veio: o partido foi o que mais cresceu de 2016 para 2020, em número de prefeitos e de vereadores. Um destaque importante é o posicionamento do Democratas em grandes cidades, seja nas quais onde vencemos e mesmo nas que perdemos. O fato de o partido ter disputado de maneira competitiva em sete capitais, já ter levado três e ter condições de levar mais duas [Rio de Janeiro e Macapá] fez com que essas eleições de 2020 fossem um marco importante dentro deste processo de reconstrução do Democratas.

Valor: Disputar o governo da Bahia em 2022 está nos seus planos?

ACM Neto: Eu ainda não estou discutindo meu próprio futuro. Até 31 de dezembro tenho uma tarefa grande aqui, de fazer a transição, de fechar oito anos de governo. Ainda tenho um volume enorme de obras para inaugurar e outras coisas que tenho para fazer até o último instante. A partir de 2021 é claro que eu vou começar a pensar no meu projeto. Diria que uma candidatura a governador, hoje, é vista como absolutamente natural aqui na Bahia. Se vai ser isso ou se, por acaso, eu vou participar de outro projeto, é preciso ter um pouco mais de paciência. O momento ainda é de comemorar a vitória de 2020, fechar meu governo. A partir do próximo ano eu tenho que conversar com o partido, analisar todo o cenário e decidir o que eu vou fazer.

Valor: Mas é indiscutível que o Democratas assume protagonismo nacional nas discussões sobre a disputa presidencial de 2022, até porque fica na quarta posição nacional de votos recebidos, até agora.

ACM Neto: Sim, com certeza. Nós já exercíamos um protagonismo político importante, sobretudo em função do papel que temos no Congresso. Agora, além de termos essa relevância política temos também a relevância eleitoral. É evidente que o voto na urna é a farinha no saco para o político. Há muito tempo o Democratas precisava dar essa demonstração de força eleitoral. E aí, você agregando a importância política, o posicionamento crítico do partido, com essa consistência eleitoral demonstrada claramente nas urnas, neste ano, nos posiciona, sem dúvida, num contexto privilegiado olhando as perspectivas para 2022.

Valor: As conversas para 2022 serão retomadas com força agora no próximo ano. O Democratas, na sua avaliação, está em pé de igualdade com o PSDB e o MDB para essas negociações?

ACM Neto: Veja, são situações bem diferentes. Eu não quero falar dos outros. O MDB e o PSDB são parceiros. Então não tenho que analisar situação de parceiros. Mas posso lhe assegurar que o Democratas vem num caminho de crescimento. Desde 2018 a gente vem ganhando terreno, espaço e relevância. Estamos em linha de crescimento. De 2016 para frente – considerando o resultado de 2018 e, agora, o de 2020 – nós fomos o partido que mais musculatura ganhou nessa escadinha. O Democratas é o que mais subiu degraus nessa escadinha. Não quero comparar com o PSDB, com o MDB, mas é fundamental ver essa tendência de cada partido. A nossa é de crescimento, o que, portanto, projeta uma perspectiva para 2022 muito boa. Mais uma vez, são nossos parceiros. Mas no nosso caso, estamos com um partido leve, que não tem que justificar nenhum passivo recente mais sério. Além disso, um partido que tem condições de conversar com diversos espectros da vida política nacional.

Valor: O fato de o Democratas fazer parte do governo Bolsonaro não pode ser um passivo mais adiante?

ACM Neto: O Democratas não faz parte do governo Bolsonaro. O Democratas não é base do governo Bolsonaro. Todo mundo sabe que temos uma posição de independência em relação a esse governo. Temos ministros neste governo escolhidos pelo presidente. São quadros qualificados, mas escolhidos pelo presidente. E depois, eu não torço contra o governo. Da mesma forma que não sou base, também não sou oposição. Sempre que foi necessário, nós ajudamos. Sobretudo na agenda econômica. Não vou ficar fazendo torcida contra o governo. Isso não tem cabimento.

Valor: O radicalismo perdeu espaço nessas eleições e o envolvimento do presidente Jair Bolsonaro nas disputas locais gerou um saldo negativo para ele próprio. Essa foi a eleição do basta à antipolítica?

ACM Neto: Duas coisas: em primeiro lugar, eu sempre destaquei, mesmo antes da pandemia, que eleição municipal é municipal. Então a influência e o peso desses atores externos sempre foi muito relativa nas eleições municipais. Quem já teve, de fato, um peso extraordinário foi o Lula [o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva], no auge do seu poderio. E eu diria que as eleições municipais deste ano ajudaram a acelerar o processo de aposentadoria do Lula. Fala-se muito que Bolsonaro não transferiu votos, mas se você observar, o Lula, mesmo no Nordeste, que era o histórico da força política dele, ele não decidiu eleição em lugar nenhum. Então é preciso destacar essa característica, que eleição municipal é municipal. A pandemia aprofundou isso ainda mais e puxou um segundo aspecto que eu destaco: a visão muito atenciosa e preocupada do eleitor em relação à capacidade de gestão, às condições para um prefeito se sentar na cadeira, no dia 1º de janeiro e saber o que vai fazer, tomar decisões. Por isso não houve espaço para aventuras. Sendo assim, os “novidadeiros”, que foram muito presentes na eleição de 2018, ficaram para trás. Eu diria até que o insucesso de pessoas que se elegeram nesta linha, como o governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel, o governador afastado de Santa Catarina, Carlos Moisés, e o governador do Amazonas [Wilson Lima]… Esses “novidadeiros” de 2018 não tiveram sucesso na gestão. Agora, com o advento da pandemia o eleitor ficou ainda mais atento a esse aspecto e, na minha opinião, de fato afastou essas saídas criadas da antipolítica.

Valor: Seu avô, Antonio Carlos Magalhães, tinha como grande projeto político lançar o filho, Luís Eduardo Magalhães, à Presidência, e foi atropelado pela morte precoce dele [por infarto, em abril de 1998]. Durante muitos anos o DEM não pode almejar mais isso por falta de lideranças nacionais, mas agora entra em 2021 com nomes fortes, o do senhor, do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta, Rodrigo Maia, e outros. E tem capilaridade eleitoral. O sonho da Presidência volta ao radar do Democratas?

ACM Neto: Eu não sei se já para 2022. Nós ainda iniciamos essa discussão interna. Mas com certeza, ter no nosso horizonte a perspectiva da construção de um projeto nacional, um projeto presidencial, é algo desejado pelas principais lideranças do Democratas. Mas eu não sei se já para 2022. Nós temos que atuar com muita responsabilidade, com cuidado. Eu sou um cara extremamente realista, pé no chão. Tem muita coisa para acontecer até 2022. Não é hora de a gente falar em eleição presidencial. Eu, como presidente do partido, tenho procurado dar conforto às diferentes alas. Eu tenho dentro do Democratas pessoas que são mais simpáticas e até integram o governo, como é o caso dos ministros Onyx [Lorenzoni, da Cidadania] e Tereza [Cristina, da Agricultura], até pessoas que são mais distantes deste governo. Como presidente, eu tenho que, na hora certa, abrir a discussão para ver qual será nosso caminho em 2022. Teremos candidato próprio à Presidência ou não? É a primeira pergunta que terá que ser respondida, mas na hora certa. Caso a decisão seja ter candidato próprio, qual vai ser o nome? É o que vem logo em seguida. E caso não tenhamos candidato próprio a presidente, com quem vamos conversar? Quais são as hipóteses que nós vamos cogitar? O que posso concluir, numa visão de curto e médio prazos, é que o Democratas, hoje, graças ao capital eleitoral que acumulou, nas eleições deste ano, tem condições de sentar para conversar com qualquer partido, com qualquer candidato sério a presidente. O partido será ouvido, respeitado e terá relevância. Agora, já será a hora de a gente ter, em 2022, nosso próprio candidato? Não posso responder ainda, porque a gente precisa primeiro encerrar essa agenda da eleição municipal para depois começar a pensar em 2022. Mas com certeza afirmo que, se não for para 2022, não tardará para o Democratas ter um candidato próprio à Presidência e avançar em seu projeto nacional. Mas não posso dizer que será já para 2022.

Valor: O senhor mencionou sua visão sobre a aposentadoria precoce de Lula com o resultado dessas eleições. Sobre o Nordeste, também com olhar para a Bahia, que é governada pelo PT, como interpreta o poder da esquerda?

ACM Neto: O Democratas aqui na Bahia vai governar o maior número de pessoas, olhando para os candidatos eleitos versus eleitorado. E outra coisa: eu, aqui no Estado, trabalhei com 15 partidos, não foi só com o Democratas. Em muitos lugares nós abrimos mão de candidaturas para que aliados pudessem ter o protagonismo e, assim, a gente ganhar as eleições. O PT tem o governo da Bahia há 14 anos. Nós somos oposição há 14 anos. E conseguimos ter resultados aqui realmente muito bons.

Valor: Mas e no Nordeste, o senhor acha que a esquerda perdeu forças?

ACM Neto: Eu não disse necessariamente que a esquerda foi aposentada. Eu disse que houve um processo de aceleração da aposentadoria do Lula. Porque antes era assim: Lula botava a mão no ombro, parecia uma varinha de condão que, automaticamente, transformava o candidato num nome competitivo. Não aconteceu isso desta vez. Salvador é um exemplo disso. Ele apoiou desde o primeiro dia a candidata do PT aqui [Major Denice], que acabou com 18% das intenções de votos. Mesmo no Recife, onde a Marília Arraes (PT) foi para o segundo turno [com João Campos, do PSB], eu não tenho notícias de que o Lula, pessoalmente, tenha conseguido eleger prefeitos em capitais ou em grandes cidades. Acho que o jogo eleitoral, a fotografia, mostra sim que os extremos, tanto no campo da esquerda quanto da direita, foram derrotados nestas eleições. Prevaleceu uma visão moderada, equilibrada e de centro.